UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP
CURSO DE ARQUITETURA E URBANISMO – SÃO JOSÉ DOS CAMPOS TEXTOS COMPLEMENTARES
THAU (ARQ E URB II) 2º E 3º SEMESTRE
TEORIA E HISTÓRIA DA ARQUITETURA E URBANISMO
PROF.ª DR.ª LÍVIA VIERNO 2


ROMA ANTIGA

GLANCEY, Jonathan. A História da Arquitetura. São Paulo: Loyola, 2001. pp 30-35.


OS MESTRES CONSTRUTORES
O PANTEÃO está para a Roma antiga assim como o Parthenon está para a Grécia antiga. Ele representa o ponto alto do projeto e da engenharia estrutural romanos e resume a diferença entre as maneiras grega e romana de construir. O Panteão (118 d-C.-c.128), um gigantesco templo com cúpula, bem no coração pulsante de Roma, talvez tenha sido projetado pelo próprio imperador Adriano. É uma estrutura impressionante, uma obra de construção fenomenal, que faz uso brilhante do concreto, mas que nunca poderia ser descrita como bela. Impressionante, sim; fascinante, naturalmente; mas, enquanto o Parthenon é requintadamente belo, o Panteão, em comparação, é bruto. Por quê? Porque para os romanos a arquitetura era algo muito mais prático que para os gregos. Os romanos conquistaram a Grécia e, embora admirassem e assimilassem muito em termos de vestuário, política, estilo arquitetônico, erudição e cultura geral, seus feitos de engenharia vão além dos da civilização grega anterior com sua elegância e graça.

Os romanos foram os "durões" do mundo antigo: práticos, trabalhadores, belicosos. Conquistaram todo o mundo ocidental conhecido, ligaram suas extensas regiões por meio de uma rede de excelentes estradas e deram às suas grandes cidades água corrente — trazida de colinas e montanhas a mais de 80 km de distância por meio de grandes aquedutos. Ofereceram banhos públicos, lavatórios públicos, esgoto e transporte público. Construíram blocos de apartamentos (insulae ou ilhas) feitos originalmente de madeira e tijolos de barro, mais tarde, de concreto, chegando à altura de oito andares. Fizeram grande uso do aquecimento subterrâneo e, de modo geral, seus edifícios e sua infra-estrutura de engenharia foram superiores aos até então conhecidos e permaneceram insuperáveis muitos séculos após a queda do Império Romano, em 476 d. C.

Construção Plástica
A arquitetura romana refletia sua postura sóbria diante da vida, da construção das cidades e do império. Assim, o Panteão era um edifício vasto, de engenharia arrojada: sua cúpula, de 43,2 m de diâmetro, foi a mais ambiciosa do mundo até Brunelleschi erguer a sua na catedral de Florença entre 1420 e 1436. A cúpula é feita de concreto. Os romanos fizeram amplo uso desse material; ele possibilitava que fizessem não apenas cúpulas — populares no projeto de casas aristocráticas, assim como em importantes edifícios cívicos, como o Panteão —, mas também abóbadas completas e grandes construções em arcos, como o Coliseu (70-82 d.C.). Assim, tornaram-se os mestres do que chamamos construção "plástica": em outras palavras, o concreto — um material plástico, maleável — possibilitava que construíssem livremente e em grande escala. Ao contrário das culturas primitivas mesopotâmica e grega, não precisavam nem queriam usar os métodos de construção de pilar e dintel. Eram livres para construir como quisessem. E como construíram.

PRIMEIRAS INFLUÊNCIAS
Essencialmente, os romanos adotaram a arquitetura grega e, até certo ponto, a etrusca. Os etruscos dominavam a Itália central até serem subjugados pelos romanos. Sua arquitetura, influenciada pelos gregos, era mais vistosa e primitiva; seus belos monumentos funerários, contudo, ainda são insuperáveis. Os romanos fizeram grande uso das ordens dórica, jônica e coríntia, acrescentando a elas duas próprias:a toscana, uma ordem dórica modificada (dos etruscos) e a compósita, uma combinação das ordens jônica e coríntia. Como o concreto permitia que construíssem sem a necessidade de colunas, muitas vezes usavam a coluna como elemento decorativo em templos, banhos e arenas. Por fim, fizeram colunas planas ou meias-colunas que faziam parte da parede: nós as chamamos pilastras e elas têm sido uma característica da arquitetura clássica desde então.

Embora construíssem muitos templos, os romanos eram melhores construindo cidades. O império as viu espalharem-se por todo o mundo clássico e, se você vivesse no Império Romano e viajasse por ele durante seu auge, digamos, em 200 d.C., acharia suas cidades, de Londinium (Inglaterra) a Leptis Magna (Líbia), quase homogêneas. Os materiais de construção e, portanto, as formas de projeto e construção variavam em todo o império — tijolos na Grã-Bretanha, pedra no norte da África —; contudo, os elementos essenciais eram basicamente os mesmos. Na verdade, o melhor templo romano ainda existente (salvo o Panteão) é a Maison Carrée, em Nímes, no sul da França, ao passo que muitas das ruínas romanas mais impressionantes estão nas modernas Turquia, Líbia, Tunísia e Síria.

A CIDADE DE ROMA
As cidades romanas eram grandes e populosas. Em seu zênite, por volta de 200 d.C., a população de Roma passava de um milhão. A maioria dos cidadãos vivia em insulae, das quais ainda se pode ver um bom exemplo em Ostia, o porto da Roma antiga. Até o grande incêndio de Roma, em 64 d.C. (quando, dizem, Nero tocou sua lira enquanto via a capital pegar fogo), estas eram, em boa parte, edificações baratas de madeira e tijolos de barro, feitas por construtores inescrupulosos: a morte por incêndio ou desabamento era comum. Uma lei de 64 d. C. insistia em que, no futuro, as insulae teriam de ser construídas com assoalhos e paredes de concreto à prova de fogo. A partir daí, as insulae romanas formaram a base dos blocos de apartamentos urbanos de todo o mundo.

As famílias de mercadores, profissionais e militares tendiam a viver em casas urbanas agrupadas ao redor de dois pátios. Estes apresentavam uma saída disfarçada para a rua (na verdade, as entradas muitas vezes eram colocadas entre lojas), mas teriam interiores relativamente sossegados, embora saibamos por suas cartas que Júlio César achava Roma muito barulhenta à noite e às vezes não conseguia dormir. A maneira como essas casas eram planejadas nos foi transmitida no projeto de moradias em torno de pátios nos centros urbanos europeus.

PALÁCIOS IMPERIAIS
As casas dos grandes proprietários e imperadores eram algo completamente diferente, e a maior e mais influente foi a Villa de Adriano (c. 118-134 d.C.) perto de Tívoli, um dia de viagem ao sul de Roma. Esse pitoresco arranjo de pavilhões, bibliotecas, banhos e gazebos agradáveis estendia-se por quatro quilômetros de jardins. A cada desvio encontrava-se uma surpresa visual: a arte da arquitetura paisagística nunca fora tão sofisticada. A Vilia fascinou arquitetos desde o renascimento e formou a base de projetos igualmente ambiciosos, como o Getty Center, em Los Angeles, projetado no espírito de Adriano por Richard Meier.

Adriano e seu predecessor, Trajano, foram dois dos maiores imperadores-arquitetos. Adriano deixou-nos o Panteão, a VilIa em Tívoli, seu grande túmulo cilíndrico (135-39 d.C.) em Roma (hoje o Castelo Santo Ângelo), e a Pons Aelius (134 d. C.), que ainda cruza o Tibre para dar acesso ao túmulo.

O IMPERADOR TRAJANO
Trajano, um soldado bem-sucedido e muito viajado, encomendou maravilhas como a ponte de Alcântara, na Espanha (arquiteto: C. Julius Lacer), que ainda sustenta uma rodovia sobre seis grandes arcos de tijolo 48 m acima do rio Tejo. Um de seus monumentos mais resistentes é a coluna que tem seu nome, em Roma. Erigida em 112 d.C., a coluna de 35 m, celebra as vitórias de Trajano nas guerras dácias. Uma escada espiral levava, por dentro da coluna, a um mirante. Originalmente, havia uma estátua de Trajano no topo, substituída em 1587 por uma de São Pedro. Por fora, um friso contínuo retratando episódios da campanha dácia acompanhavam a espiral das escadas.

Eles são soberbos, mas muito mais importantes são as letras usadas para as inscrições na base da coluna. As letras de Trajano são a base da tipografia moderna; o texto que você está lendo agora é composto em um tipo derivado do de Trajano. Os romanos foram grandes construtores de monumentos a vitórias e estes formaram a base para a maioria dos monumentos desse tipo desde o Renascimento. O Arco de Sétimo Severo, em Roma, por exemplo, é claramente a base para o Arco de Mármore, em Londres, e o Arco do Triunfo, em Paris. Obcecados por noções de higiene pessoal, os romanos trouxeram água para o coração das cidades e construíram esgotos para remover os dejetos. Seus aquedutos e banhos públicos são grandes maravilhas e sua escala continua impressionante. Grandes estádios, como o Coliseu, e pistas de corrida, como o Circo Máximo, são exemplos soberbos de engenharia estrutural e poderosas lembranças de como os imperadores mantinham a população feliz e controlada, com sua famosa política de "pão e circo”. Contudo, as Termas de Caracala (212-16 d.C.) e os Banhos de Diocleciano (298-306 d.C.) são maravilhas arquitetônicas da mais alta ordem.

Os banhos eram estruturas opulentas, de escala hercúlea, profusamente acabados com mármores e cheios de estátuas, fontes e jardins. O edifício principal das Termas de Caracala mede 225m por 115 m. Esse leviatã erguia-se por trás das paredes de um grande complexo de lazer, com estádio, ginásio, biblioteca e salões de palestras. É difícil imaginar como teriam sido deliciosos esses edifícios: nunca mais se construiu algo parecido, embora a Pennsylvania Station, demolida, em Nova York, tenha sido projetada, na virada do século XX pelos arquitetos McKim, Meade e White como uma homenagem às Termas de Caracala. Os Banhos de Diocleciano foram ainda maiores do que de Caracala.

A BASÍLICA
Se os banhos, circos e estádios foram os três lugares de encontro mais populares na Roma antiga (e o fórum, naturalmente, o equivalente romano da ágora grega), a basílica foi o outro. A basílica era o principal lugar público de encontro coberto e era usada para muitas funções — tribunal, espaço para comércio e sala de reuniões. Seu projeto baseava-se no dos banhos imperiais e a mais grandiosa foi a Basílica de Constantino (307-12 d.C.). Ela compreendia duas naves laterais e uma nave principal cobertas com tetos de concreto abobadados. A nave principal tinha 80 m de comprimento, 25 m de largura e 35 m de altura; em outras palavras, era grande como uma catedral medieval e, aos nossos olhos, teria lembrado uma catedral renascentista ou um terminal ferroviário semelhante a uma catedral. Essa é a reação correta porque a basílica romana foi a base das primeiras igrejas cristãs importantes. Na verdade, a Basílica de Constantino, em Trier, na Alemanha (início do século IV d.C.) é o vínculo entre a arquitetura das antigas Roma e Bizâncio e a arquitetura românica do futuro. Constantino, naturalmente, foi o imperador que converteu o Império Romano ao cristianismo, em 313 d.C.

ARQUITETURA DO IMPÉRIO ROMANO – 300 a.C. – 300 d.C.

GYMPEL, Jan. História da arquitetura – da antiguidade aos nossos dias. Colônia: Köneman, 1996. pp 12-14.

DUPLA HERANÇA
A Península Itálica tinha caído, desde cedo, sob influência da cultura grega. Vindos provavelmente da Ásia Menor para o Norte da Itália, os etruscos deram coesão à população que habitava as colinas ao longo do Tibre, assim como um nome à região - Roma. No século III a.C., já fortemente helenizados, foram dominados pelos romanos que, nessa época, estenderam o seu domínio à Grécia e à Ásia Menor.

Os gregos da península itálica, independentes das cidades-estado do continente grego que viriam a ser conquistadas pelos romanos no início do século seguinte, tinham desenvolvido uma arquitetura que já pouco seguia os modelos clássicos. Talvez sob influência etrusca, tendia para a axialidade e para o gigantismo, aglomerando freqüentemente vários templos num único lugar (como por exemplo em Selinunte, na Sicília).

Durante o domínio do imperador Augusto esta dupla herança - etrusca e grega - deu origem a uma forma de arte e a uma arquitetura romana independentes, que duraram 400 anos. Os conhecimentos técnicos e de engenharia dos etruscos na construção de estradas, pontes e túneis foram aperfeiçoados, assim como as suas capacidades relativamente à construção de abóbadas. Em contrapartida, os elementos da arquitetura grega clássica decaíram definitivamente para uma posição de simples decoração, como por exemplo no Coliseu, onde as ordens das colunas eram impostas, por andares, ao sistema de suporte das arcadas.

Não é por acaso que o capitel coríntio, muito apreciado durante o helenismo, se tornou o preferido de Roma. Para o tornar ainda mais suntuoso foi aumentado de modo a formar um capitel compósito no qual, sobre a coroa de folhas de acanto, sobressaem volutas altamente trabalhadas. Também se tornaram típicos os entablamentos contracurvados, perpendicularmente salientes sobre colunas sem função dispostas à frente da fachada. No que se refere ao urbanismo, os romanos também se basearam na malha de retícula regular formada pelas ruas das cidades etruscas e das colônias gregas, completando esse sistema com um eixo norte-sul (cardo) e outro este-oeste (decumanos). Perto do cruzamento dessas duas ruas principais localizava-se o fórum - uma evolução da agora grega - o centro da vida pública da polis. Os romanos fecharam este espaço, agrupando, geralmente segundo o seu eixo principal, os edifícios públicos, tais como a basílica, utilizada sobretudo como mercado ou tribunal, arcos de triunfo ou templos. Estes últimos, tal como os dos etruscos, eram construídos sobre um podium elevado com escadarias na fachada privilegiada, enquanto que a fachada posterior da cella e as paredes laterais eram mantidas simples ou apenas decoradas com colunas adossadas.

O urbanismo revelava-se também na construção de teatros, termas e estádios magníficos, assim como na edificação de villae que, com os seus jardins, terraços, colunatas e pavilhões, davam ao setor privado uma importância determinante. O forte crescimento da população urbana tomou necessária a edificação de células habitacionais: surgia assim a construção massificada.

EXPRESSÃO DE PODER E ÍMPETO EXPANSIONISTA
Para Roma, a arquitetura era expressão de domínio. O poder mandava erigir, em todo o lado, pelo exército, edifícios públicos para funções civis. O exército detinha o monopólio sobre as matérias--primas naturais, sendo os tijolos e telhas produzidos em cerâmicas próprias. Parece sintomático que o arco tenha sido o elemento marcante da arquitetura romana: enquanto que no perístilo grego as colunatas produzem um efeito calmo e estático, os conjuntos de arcos (arcadas) são movimentados e dinâmicos; os arcos elevam-se, regressam à terra e aí formam o início de um novo arco. Esta característica dá ao arco um caráter expansivo, impelindo-o para paragens distantes, o que corresponde, na íntegra, ao desejo de expansão do Império Romano. Conquistando vastas regiões, algumas bem longínquas, o império construiu estradas que as ligavam a Roma, penetrando profundamente na paisagem com as suas condutas, constituídas em parte por aquedutos, que atravessavam grandes distâncias transportando a água de nascentes afastadas para as cidades.

Ao aplicarem a sua técnica de construção de abóbadas e cúpulas de dimensões cada vez maiores, os romanos conseguiram criar espaços fechados enormes, sem apoios intermédios. Para isso foram auxiliados pela sua versão de um material construtivo hoje onipresente: o concreto. Produzido a partir de cal, areia, pedaços de calcário, pozolana, cascalho e água era vertido em moldes, deixado solidificar e usado na construção. Este foi o material utilizado na construção da cúpula do Panteão. Como primeiro grande espaço de culto da antiguidade, esta construção de planta centrada é totalmente dirigida para o seu interior.

No entanto, o interior da maioria dos edifícios públicos revelam a tendência romana para a axialidade. Este efeito era apoiado pela decoração dos edifícios, principalmente através de pinturas de uma riqueza cromática magnífica. É claro que nesta arquitetura, representativa, suntuosa e de grandes dimensões, que caracterizou a arte construtiva romana nos séculos que se seguiram, tudo era mais aparência do que essência. A construção barata em tijolo, pedra irregular ou "cimento romano" moldado era escondida por um revestimento de mármores, mosaicos ou estuques.

O séc. III trouxe ameaças externas, o descalabro das finanças do estado e a dissolução interna do império, dirigido por imperadores em rápida sucessão ou concorrendo uns com os outros.